Schiller reflete sobre poesia e liberdade

“Poesia Ingênua e Sentimental”, escrito pelo dramaturgo alemão em 1795, é traduzido por Márcio Suzuki.

“Poesia Ingênua e Sentimental” representa mais uma etapa do projeto estético do escritor e pensador alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Se na “Educação Estética do Homem” ele pretendia nos mostrar como uma forma de liberdade poderia ser atingida através de uma educação pelo belo, neste ensaio posterior pretende basicamente assinalar como esta liberdade moral e estética pode ser criada através da poesia.
Esta mudança de enfoque leva Schiller a trilhar o mesmo percurso da “Crítica do Juízo" de Kant, pois neste livro os capítulos iniciais tratam da apreciação estética, enquanto que os capítulos sobre o gênio inauguram uma análise sobre a criação artística. É possível deste modo estabelecer uma relação direta entre o Gênio kantiano e a “Poesia Ingênua e Sentimental” de Schiller, assim como entre o juízo de gosto e a “Educação Estética”. Em ambos os casos, se bem que em etapas diferentes, podemos notar a preocupação básica de Schiller em conferir à apreciação estética e à criação artística uma fundamentação moral, já que a arte não encontra critérios objetivos para se enquadrar aos padrões que Kant estabeleceu para a nova filosofia.
A poesia para estes dois filósofos se torna o lugar privilegiado para a expressão artística: ela está num lugar estratégico em relação às outras artes, pois não é nem tão concreta quanto as artes plásticas, nem tão abstrata como a música. Ela oferece deste modo os elementos ideais para que o artista encontre no mundo condições para transcender o real e provar uma forma de liberdade, mesmo que seja de segunda espécie, pois está sob os limites da matéria e do sensível.
O artista por sua vez não pode simplesmente imitar o real, já que o mundo da representação sensível é controlado pelo entendimento, e ele deve visar também o suprassensível para justificar sua existência (não há moralidade sem o suprassensível). Por outro lado, ele não pode abandonar o real, e ceder frente às especulações da razão. É interessante notar que o impasse entre realismo e idealismo, que contamina toda a filosofia da época aparece reproduzido aqui ao nível da criação artística. Realismo e idealismo aparecendo como posição-limite para o artista.
A partir desta oposição, duas formas de se fazer poesia são deduzidas. Uma, tendo a realidade sensível como parâmetro, se denomina “poesia ingênua”, a outra, que tem o ideal como projeto é chamada de poesia sentimental”. Uma se identificando com a pintura antiga, a na união entre razão e sensibilidade, a um mundo que já se perdeu. A outra se identificando com a música, a uma oposição entre razão e sensibilidade e que representava o momento atual.
Entretanto, como diz Schiller numa carta a Humboldt, não se deve subordinar a poesia ingênua à poesia sentimental, mas antes coordenar estas duas formas em relação a um conceito genérico ideal mais alto. Da mesma maneira que Kant procurava sintetizar a oposição entre idealismo e realismo através de um novo conceito, reflexionante, Schiller procura aqui uma síntese ideal para estas duas formas de poesia. Se a poesia sentimental é identificada por Schiller à arte como supressão da natureza, ao contrário da poesia ingênua, isto não o impedia de procurar uma síntese ideal, onde a arte acabada retorno à natureza, mesmo sob às condições da reflexão.
Esta vontade de síntese entre as duas formas de poesia é a meu ver o que há de mais importante e atual no texto. A poesia ingênua como tal nunca existiu, tratando-se antes de uma construção inventiva para caracterizar esta dissociação entre a natureza e a cultura, entre a razão e a sensibilidade que são sintomas dos tempos modernos. Não existe um olhar ingênuo, como diz Gombrich no seu livro “Arte e Ilusão”, e as artes plásticas não podem ser paradigma para a poesia ingênua porque a cultura está sempre por detrás dos nossos olhos. No entanto, essa síntese, mesmo que ideal, confere à poesia e à arte o que há de mais importante para que ela possa continuar a existir, ou seja um compromisso com o mundo real, com a ““matéria vertente” como disse Guimarães Rosa.
Estes e outros problemas são analisados por Márcio Suzuki na sua bela apresentação sobre “Poesia Ingênua e Sentimental”. Além da apresentação, Suzuki é responsável pelas notas e a tradução. O conjunto, que resultou na sua tese de mestrado em filosofia na USP, confirma a qualidade do seu trabalho não só como tradutor, mas como alguém que pensa em arte e filosofia ao mesmo tempo. As notas que acompanham o ensaio não só facilitam a compreensão como elucidam caso a caso o debate da época, assim como retratam com vigor as principais correntes ideológicas.
A tradução de Márcio Suzuki, por sua vez, serve como exemplo - para uma forma de se traduzir o. alemão que vem sendo desenvolvida pelo departamento de filosofia da USP e que tem Rubens Rodrigues Torres Filho como - principal expoente e Suzuki como a grande esperança. E realmente comovente a maneira como ele: consegue trazer para o português o clima de uma linguagem que se - perdeu com o fim do idealismo alemão e que exibe uma tensão constante entre o que está dito e o que sugere o indizível. Pena que esta edição tenha uma capa tão feia, confundindo ingenuidade com pintura de má qualidade.
MARCO GIANNOTTI é artista plástico

Ao poeta ingênuo, a natureza concedeu o favor de sempre atuar como uma unidade indivisa, de ser a cada momento um todo autônomo e acabado, e de expor a humanidade na realidade segundo seu conteúdo inteiro. Ao sentimental, emprestou o poder ou, antes, dotou-o de um vivo impulso para restabelecer por si mesmo aquela unidade nele suprimida por abstração, a fim de tornar a humanidade completa em si mesmo, passando de um estado limitado a um infinito. Dar expressão plena à natureza humana é, no entanto, a tarefa comum a ambos e, sem isso, de forma alguma poderiam se chamar poetas; contudo, o poeta ingênuo sempre tem a realidade sensível como vantagem sobre o sentimental, pois apresenta como um fato real aquilo que este apenas se empenha em alcançar. E isso é também o que experimenta cada um quando se observa a fruir poesias ingênuas. Nesse momento, sente ativadas todas as forças de sua humanidade, de nada carece, sendo um todo em si mesmo; sem nada distinguir em seu sentimento, alegra-se simultaneamente com sua atividade espiritual e com sua vida sensível.
Extraído de “Poesia Ingênua e Sentimental"