Museu no paraíso

No topo de uma montanha, em meio à natureza, o Miho abriga 2.000 obras

A informação sobre a origem do termo Paraíso pode ser encontrada em uma das salas sobre a arte asiática do museu Miho, inaugurado em 1996. O museu é impressionante não só pela sua localização no topo de uma montanha, pela arquitetura refinada, mas também pelo fato de boa parte da sua excepcional coleção ter sido adquirida no mercado internacional na década de 90, em pleno século 20! Cabe indagar como ainda é possível capturar obras desse porte, algo que parece não ter preço.
A coleção, de fato orçada em torno de 300 milhões a um bilhão de dólares, é iniciativa da senhora Mihoko Koyama (daí o nome Miho), uma das mulheres mais ricas do Japão e herdeira do grupo Toyobo, especializado em fibras sintéticas de alta tecnologia. O museu foi criado pelo renomado arquiteto chinês Ieoh Ming Pei, reconhecido internacionalmente por obras como a pirâmide do Louvre. O projeto foi concebido para ficar no interior de uma montanha à altura das nuvens. Paraíso, ou Shangri-la, como afirma o arquiteto, remete ao conto tradicional chinês em que um camponês encontra um mundo encantado e imortal.
A natureza aqui é toda moldada para criar esse ambiente purificado, o sítio cultiva produtos naturais especialmente selecionados. Já o acesso se faz mediante um túnel espetacular que lembra uma nave espacial seguido por uma ponte estaiada: paulatinamente, o museu se faz visível como um passe de mágica, uma aparição.
Situado nas montanhas de Shigaraki, Miho está ao sudoeste de Kioto. O trajeto pode ser feito em 15 minutos com trem partindo da estação central, seguido por um percurso de ônibus de cerca de uma hora. A iniciativa de internacionalizar o museu partiu de Pei, visto que a ideia original era fazer um espaço dedicado à arte japonesa. A rota da seda, que uniu o Oriente ao Ocidente pela primeira vez, provavelmente no oitavo milênio antes de Cristo, é o fio condutor dessa coleção de aproximadamente 2.000 obras que contém, como exemplo, um afresco pompeiano, um mosaico romano, uma estátua da rainha Arsinoe II do período ptolomaico, um buda monumental do século 2.º d.C. vindo do Paquistão, além da rara coleção particular de utensílios destinados à cerimônia do chá iniciada há 40 anos pela presidente do grupo Shuhei.
A cerimônia do chá é um elemento fundamental da tradição japonesa. O chá foi introduzido no século 9.º pelo monge budista Eichu, quando retornava da China. Uma série de ferramentas é necessária para realizar o ritual. É impressionante o apreço da cultura japonesa pelos mínimos detalhes, em que cada ranhura revela uma dimensão da memória, do tempo perdido, como na madeleine em Proust. Isso se faz evidente em vários momentos na vida de Kioto: seja no festival da primavera em que Maikos, aprendizes de Geisha, oferecem ao público o chá antes de iniciar o espetáculo de dança e canto, seja nos recintos específicos destinados a essa bebida em templos.
O Museu Raku, em Kioto, mostra como uma mesma família faz uma cerâmica específica para a taça de chá há mais de 500 anos. Na literatura, temos o belo exemplo de Nuvens de Pássaros Brancos (1956, traduzido no Brasil pela editora Nova Fronteira), livro de Yasunari Kawabata, ganhador do Prêmio Nobel de 1968. Nessa obra, boa parte da trama gira em torno da cerimônia do chá e da importância simbólica que cada utensílio passa a adquirir na ação, como quando, por exemplo, uma taça de chasen, que guarda consigo as marcas do batom dos lábios da senhora Ota, é partido e indica um desenlace trágico do enredo.
O museu também faz exposições temporárias em torno das estações do ano: durante a primavera mostrou a obra de um pintor muito interessante chamado Nagasawa Rosetsu (1754-1799), um dos artistas responsáveis pelo "renascimento" da pintura paisagística em Kioto. Possuidor de refinada ironia, sua obra oscila entre imagens meio abstratas, meio figurativas, feitas com pinceladas rápidas e outras com imenso apreço ao detalhe. Aos olhos de um pintor ocidental, as imagens mais gestuais são fascinantes, enquanto outras beiram a ilustração. Para o verão, o museu planeja realizar uma exposição sobre a arte pré-colombiana.
A construção desse museu está intimamente ligada às atividades espirituais desenvolvidas por Mihoko Koyama. A escolha do arquiteto ocorreu pelo fato de Pei ter anteriormente feito o campanário em Misono, próximo ao museu, suntuosa sede do Shinji Shumekai international center, movimento espiritual presidido por ela. Shinji significa amor divino, Shumei, luz divina, e kai, organização. Cerca de 300 mil pessoas ao redor do mundo fazem parte desse movimento, que prega a paz espiritual através do contato harmônico com a natureza e com a beleza suscitada pelas obras de arte. Seu mentor espiritual foi Mokichi Okada, que Mihoko conheceu em 1941. Este nome não é estranho ao público brasileiro, visto que em 1971 surgiu em São Paulo a Fundação Mokiti Okada, que desenvolve uma série de atividades ligadas ao bem-estar, à saúde e ao meio ambiente. A religião, de caráter messiânico, pode causar arrepios em muitos, ao propor a cura e a purificação pelas mãos, mas, desde que sua causa resulte em "paraísos terrestres" como esse, nada a reclamar!