Cromos (1997)

CROMOS

Para quem conheceu os trabalhos anteriores de Marco Giannotti, as obras recentes, que estão aqui sendo expostas, aparecem ao mesmo tempo como renovação e testemunho de profunda unidade. A impressão de conjunto diante desses grandes quadros grandes, pois mesmo aqueles de dimensão mais modesta exprimem ampla ocupação do espaço, é da mesma natureza que aquela que nasce diante das Janelas ou dos trabalhos das fases anteriores. Cada uma das obras de Marco Giannotti constitui, com efeito, momento de uma evolução e de uma vida, em vez de ser uma parada e uma fixação de um instante. Nos trabalhos expostos, porém, ao contrário do que acontecia nos antigos, apenas se reconhecem traços ou vestígios de forma, massas retangulares ou cruciformes de um preto matizado, colocadas sobre espaços coloridos de tonalidades azuis, violeta, amarelas ou vermelhas. Nas obras mais antigas essas massas constituíam a transposição ainda visível de formas pertencentes a arquiteturas metálicas ou objetos do mobiliário urbano: lâmpadas elétricas, transformadores. Essas ainda subsistem, mas, longe de se revelarem como empréstimos do mundo percebido, aparecem sobretudo ali como testemunho de um mundo a ser criado. Isso porque, para Marco Giannotti, as formas percebidas não formam aquilo que induz o artista a representar seu estado de alma numa imagem. As formas nada mais fazem do que suscitar as cores; chamá-las é para elas, por assim dizer, mero pretexto. Daí se segue, sem dúvida, o sentimento que essas telas despertam, de um estado ainda bruto e indeterminado do real cotidiano, de que essas formas obscuras constituem apenas o traço. A verdadeira realidade que o artista restitui se exprime na cor, triunfo dessa realidade.

Nunca cores puras, sempre matizadas e misturadas, dégradée, raramente retumbantes como aquela exceção do vermelho de um de seus grandes quadros. Mas sempre transparentes, sem qualquer carga de pasta, às vezes vizinhas da têmpera e da aquarela. Além do mais, parece que a paleta de Marco Giannotti se enriqueceu, em relação às telas dos anos precedentes, de um azul-violeta suntuoso, que, por assim dizer, é tema de três ou quatro quadros da exposição. Deliberadamente emprego aqui a palavra tema, pois é a cor o tema-essência de suas obras. Nunca, porém, a cor é para ele dado natural. É, no espectador, no criador ou no contemplador dessa surrealidade, o produto de uma alquimia interna. A cor é para Marco Giannotti cosa mentale. Aceitando, creio, essa ideia de pintura, nunca de modo intelectualista, é que se poderá que se poderá apreciar a qualidade dessas obras e, no único sentido da palavra que lhe convém, compreendê-las.

Gilles-Gaston Granger - 1997