Paisagens Urbanas (1991)

Difícil paisagem

Se nas janelas as paisagens se oferecem, nos quadros elas podem ser expostas: o olhar é levado a um espaço que polemiza com as condições de apresentação de seu objeto, seja ele figurativo ou não. Em muitas obras, porém, a técnica dissimula-se no resultado, e a conversão da intuição em seu trabalho subordina-se a uma estratégia de expressão segundo a qual o conteúdo prevalece sobre a forma. A paisagem que o quadro expõe, assim, emancipa-se da técnica que a possibilitou.

Não é o que ocorre nessas paisagens de Marco Giannotti. Aqui, a capacidade de representá-las é obstruída pela aplicação de grandes manchas de cor que emperram a exposição. Menos que indefinir, elas nesses quadros revelam o problema de uma pintura. A estrutura original da janela, reduzida à intimidade de uma lembrança, é afetada por uma catarata policromática que dificulta ao olhar sua tendência à composição. Esse incômodo reflete as dificuldades em situar para a pintura um espaço próprio, capaz de conciliar a sofisticação das técnicas com uma virtual arqueologia para o olhar, que traduzisse a experiência sobre materiais em uma forma de vida.

A pouca rima desses quadros, portanto, deve-se ao fato de que neles as janelas se dão para o interior do ateliê, onde a produção, recusando-se a ser mero duplo do visível, teima em inscrever suas etapas. Ao traçado original sobrepõe-se a colagem de papéis, cujo ornamento é reduzido pelo fogo. Os escombros deixados pelo maçarico são então tomados por densa neblina de cor cuja intensidade e volume parecem indicar nova tentativa de significação, na qual fosse o olhar elevado ao plano da vontade, subjacente, mas impenetrável ao plano da representação. Mas os vestígios da janela contrapõem ao sublime a persistência do figurativo. A irresolução do problema beira a justaposição de planos, não fossem concedidas ao olhar certas passagens entre eles, nas quais o artista escondeu seu lirismo.

Entretanto, nem toda aporia é melancólica. Ocorre que, nessas paisagens, assistimos a uma dialética que busca preservar para a pintura sua capacidade de indicar a razão dos seus procedimentos. Aqui, a aventura consiste em tematizar os problemas da produção, que entrevemos pelas janelas. Apontar insistentemente para o ateliê como lugar privilegiado da pintura culminou em tornar suas dificuldades visíveis e, de certo modo, conservá-las para o olhar do espectador. É sobretudo nessas horas que aquilo que é conservador transforma-se no que é íntimo.

Vinicius de Figueiredo - 1991