Através (2019)

Através e entre tramas

 

Between the idea and the reality falls the shadow.

T.S. Eliot , in The Hollow Men

  

Nessas pinturas recentes de Marco Giannotti, a promessa de precisão cede lugar a atmosferas turvas, nebulosas, tensas, torcionadas.

 

Começando pelo desenho, malhas, tramas, retículas, grelhas vão variando em soluções mais ou menos abstratas, remetendo aos padrões recorrentes das fachadas de prédios, comuns e aconchegantes como os desenhos intrincados e domésticos dos assentos das cadeiras de palhinha, ásperos como os aramados das gaiolas, cercas de quintais e terrenos baldios, abrutalhados como vergalhões de ferro com que se estruturam lajes, vigas e pilares, e se constroem as paredes de celas presidiárias, até desembocar em desenhos docemente complexos semelhantes aos muxarabis, o clássico elemento de vedação empregado nas janelas, que filtra a luz externa para dentro da intimidade das casas, mais uma herança árabe, cultura que descartou a figuração estabelecendo os padrões geométricos, suas combinações e sobreposições, como entretenimento do olho perscrutador em seus passeios pelos desenhos das coisas. Enquanto no ocidente o sentido de ordem conflui para a simetria,  o Extremo Oriente explorou a noção de que olhar confina com outro pensar, ensinando que aquilo que a primeira vista sugere emaranhamento e confusão é produto de uma lógica refinada.

 

Essas pinturas de Giannotti afinam-se com esta orientação: são tomadas por malhas retorcidas, arquiteturas aéreas, túneis aparentados com construções gráficas digitais, afunilando-se em direção a pequenas áreas de escape quadradas, módulos retraídos à pequena escala em virtude da distância; há também, em casos mais radicais, telas compostas por composições divergentes, algumas fundadas em contrapontos de perspectivas, outros em sobreposições desalinhadas, todos produtos instáveis, inquietos, ruidosos.

 

Mas estamos tratando de pinturas, e aí nosso artista, um consumado mestre da cor,  dá profundidade imprevista ao problema: toda a série é realizada em cores rebaixadas, quando não sobre o preto. Malhas, tramas, retículas, grelhas, fulguram sob o impacto de luzes não homogêneas, provenientes de direções desencontradas, pela frente, lateral, por trás. Cada tela é uma arena em que desenhos, por rigorosos que sejam, têm sua nitidez afrontada por luzes que corroem  suas bordas, embaciam a trajetória das linhas que os constituem. O otimismo do desenho, construção despojada, vê-se atacado no nervo pelas variações atmosféricas, a luz que atravessa o quadrilátero da tela, imantando-a, levando o olho a vibrar em resposta, perplexo, não tem para onde correr, onde ancorar-se e se tranquilizar.  

 

Houve um tempo em que as tramas geométricas coincidiam com a ideia de pureza no âmbito das artes visuais. Desenhos, pinturas e esculturas pautadas em retículas seriam a verdadeira expressão da arte moderna. Sua condição abstrata era, como explica Rosalind Krauss em seu Grids (Grelhas), “hostil à literatura, à narrativa, ao discurso”. Com Mondrian, Malevich, Stepanova, Rodchenko,  na esteira do Cubismo de Picasso e Braque, as artes visuais, no começo do século XX,  alforriavam-se de seu milenar papel de representação do real, libertavam-se do seu passado reivindicando uma existência autônoma. Todos esses artistas são revisitados por Giannotti nessa sua série, esses e aqueles que o sucederam, como Albers, Reinhardt, os Minimalistas, nossos Concretistas, Helio Oiticica, que defendia uma “vontade construtiva” como constitutiva da arte latino-americana. Mas Giannotti põe em cheque essa visão otimista, equivocada como a planilha de uma folha de Excel com a qual tentamos organizar nosso cotidiano.

 

Os artistas do Renascimento inventaram a perspectiva como modo de organizar o mundo segundo o ponto de vista de quem contemplava a tela. Mas o mundo de hoje não se organiza a partir de um ou dois ou três pontos de fuga, mas de n variáveis. E não se o enfrenta de fora, mas de dentro, submerso nele, no meio do redemoinho. 

 

Agnaldo Farias