Cárcere (1996)

Fazem de noite, dia, a luz da manhã é para mim como trevas.

Livro de Jó, 16

Piranese fez os mais fantásticos, sombrios, estranhos cárceres. a arquitetura nos lembra o terceiro estilo pompeiano, só que enquanto os afrescos foram destruídos pelo tempo real, as estruturas de piranese parecem destruídas pelo seu imaginário. Mais do que labirintos, é o espaço inteiro que parece se desintegrar: não há figuras, nem personagens, apenas vestígios, sombras, lembranças de uma presença humana: máquinas de tortura, correntes, cadafalsos, escadas, plataformas, candelabros, janelas aprisionadas. as gravuras só poderiam ser em preto e branco: um mundo de contrastes, luz e sombra, esperança e solidão, desespero e liberdade. 


Já nas suas vistas sobre a cidade de Roma, piranese apresentava uma variação de escala absoluta: os habitantes aparecem como anões diante das ruínas. um pé de uma estátua gigante pode esmagar facilmente um passante. Nas imagens desta cidade eterna o tempo constrange o espaço. 


Os cárceres parecem ter existido desde sempre, e provavelmente mesmo desabando, jamais deixarão de existir. Tempo e espaço estão suspensos, o ar está carregado. É como se estivéssemos na caverna de platão. Curioso é o fato de estas gravuras serem contemporâneas ao Iluminismo. porém, não há filosofia, ciência, política capaz de nos libertar daqui. Temos que nos acostumar com este universo, construir novas pontes mesmo que não nos leve a nenhum lugar, talvez exercitar uma forma de liberdade mesmo que seja de forma hipotética. 


Não há um tempo definido neste lugar. passado, presente e futuro parecem condensados como num buraco negro. É impossível ver o sol, perceber as mudanças atmosféricas, aqui temos uma esperança de redenção que jamais irá se confirmar. Não temos sequer motivos para estar trancafiados (como no processo em Kafka). 


Estas prisões não estão nem além‚ nem aquém‚ de nos mesmos, são na verdade uma ferida que não cura, um cérebro abafado pelas ideias, uma alma desalmada. Estas prisões captam o que há de mais profundo em nosso ser. As gravuras de piranesi retratam um espaço inteiramente contaminado pelo tempo, de forma que não podemos distinguir um elemento do outro.