Oleodutos (2005)

Tornar visível o invisível

Ao pensar no que escreverei, surpreende-me a proximidade entre dois textos que cada conheciam entre si. Em um dos fragmentos do livro que não chegou a terminar. Gregory Bateson, combinando "The Rime of the Ancient Mariner", de Coleridge, com um conto de balinês, notava que as peças "partilhavam a noção de, sob certas circunstâncias, não comunicar algo" (G. Bateson, Angels Fear: Towards an Epistemology of the Sacred, 1987, pp. 79-80). Nove anos depois, Marco Giannotti declarava: “Muitas pinturas contemporâneas buscam falar sobre a dificuldade de expressar algo que não pode ser dito" (Cubatão, 1996). E, no entanto, o antropólogo e o pintor falavam de coisas bem distintas: Bateson, de ultrapassar a dicotomia, estabelecida desde Descartes, entre mente e matéria, procurando dar condições para que o silêncio voltasse a ser humanamente fecundo; Giannotti, de fechar a porta para o falaz ilusionismo pictórico.

A diferença de suas metas não os impedia de manifestar o desconforto comum ante as estratégias que movem o maquínico e causalista mundo contemporâneo, em que o fáustico progressivamente aponta para o tão-só destrutivo. A proximidade deve ser levada adiante: enquanto, entre os contemporâneos, a tendência frequente é a de se enterrarem em seus barris beckettianos, de onde esperam escapar, ou ao menos adiar o raio, o tiro ou o processo que os eliminará, as obras do antropólogo e do pintor denunciam o status quo e propõem um modo ativo de se manter em vida; denúncia que se diferencia mesmo porque um antropólogo não é um pintor. O antropólogo mostra o preconceito que subjaz ao cientificismo exuberante: fala-se de tudo menos da mente que propicia seu cálculo; o pintor, mais próximo da cena imediata do mundo, das "imagens apocalípticas de um presente que se tornam cada vez mais metáforas do futuro" (Giannotti, Cubatão, 1996).

Mas como a pintura de Marco Giannotti tematiza o apocalipse se seus quadros ressaltam aspectos das metrópoles que conhecemos? Por uma solução de aparência simples: pela quebra da cadeia de transmissão de que se alimenta o sistema vigente. Concretamente: as tubulações, os oleodutos, deixam de ser artefatos transmissores para que se destaquem em si; não como flashes, a serem estampados nas páginas de revista ou jornal, senão como construções maquínicas que, pelas variações cromáticas que nelas se investem - a cor deixando de ser ornamento para que faça reverberar a matéria - avançam sobre o espectador.

Desse modo, o abstrato em Giannotti não é uma recusa do mundo, mas sim um ato de resistência contra o mundo-posto-à-venda pelo marketing. Não é tampouco um gesto contra a técnica, senão contra sua sujeição a um sistema exploratório que sempre e mais nos aproxima da paralisia e da destruição. É importante, pois, enfatizar que o realce do que nos seus quadros não se diz tem a eficiência de que estaria desprovida a figuração da catástrofe – esta seria semelhante a uma advertência, logo consumida pelos milhares de mensagens otimistas, publicitárias do sistema explorador e globalizante. O que não se diz demanda o poder de imaginação da mente receptora; sua capacidade de intuir que as tubulações, enquanto conectadas, são bombas de efeito retardado. Ao desconectá-las e articulá-las ao tratamento das cores diversificadas, explicita-se que o paraíso industrial encobre o inferno. Como ainda em 1996 afirmava Marco Giannotti: “Ao olhar para Cubatão temos a mesma sensação de pavor e medo que temos ao olhar para um penhasco". Isso posto, podemos terminar com as palavras de Bateson, agora integradas em um alvo pictórico: “A mente sem a matéria não pode existir; a matéria sem a mente existe mas é inacessível”. A cosa mentale, a pintura, exige que o receptor suplemente seus cortes e vazios.

Luiz Costa Lima - 2005