Pigmentos (1986)

"Uma grande conquista moderna foi ter encontrado

o segredo da expressão pela cor."

 

Matisse

Os trabalhos com pigmento constituíram o início de uma poética. Como todo pintor jovem da década de 80, sofri a influência do neo-expressionismo e da volta à pintura. Mas foi em meados deste período que, em conjunto com outros artistas, nos voltamos um pouco mais para o contexto brasileiro e fizemos uma inflexão critica sobre a pintura neo-expressionista. para realizar estes trabalhos pensei a princípio em Matisse, Rothko e Yves Klein. Entretanto, artistas brasileiros que lidavam com pigmento no seu estado mais puro, como Mira Schendel e Hélio Oiticica, eram ainda muito pouco divulgados. Nesta série, a imagem de uma janela apareceu pela primeira vez. 


Matisse realizou uma pintura em 1914 que tenho sempre em mente, porte-fenêtre à la Collioure que está no Museu Nacional de arte Moderna, Centro Georges Pompidou, em paris. ao dissipar a estrutura da janela em um fundo negro que se transforma não mais em sombra, mas em cor, o espaço virtual da janela é completamente subvertido. No meu caso, a presença da chapa metálica confere não só um aspecto literal, minimalista, à obra, como também coloca a gênese da cor em dois tempos: o pigmento preto é um óxido de ferro, a chapa de ferro por sua vez - à medida que oxida - cria uma superfície de pigmento amarronzada, pois está em processo contínuo de transformação. o gesto expressivo dilui-se num gesto cromático no tempo. a cor se torna um veículo, pigmento, pó, onde cada matiz determina um caminho diferente de formalização da pintura.