Templos (1995)

Reportagem: O Estado de São Paulo - Dezembro 1995 - Antonio Gonçalves Filho

GIANNOTTI ABRE SEUS TEMPLOS POÉTICOS

 

Para produzir seus quadros, pintor se aliou a Goethe e Murilo Mendes

 

A grande referência de Marco Giannotti é a pintura de outro Marco, Rothko (1903-1970). Não é preciso lembrar que Rothko criou um espaço concreto com suas telas, uma verdadeira parede, para entender que as colunas históricas de Paestum ou o templo de Segesta pintados por Giannotti perseguem o mesmo objetivo. Sugeridos pelos poemas de Murilo Mendes, essas colunas e templos podem ser vistos em São Paulo, a partir de hoje, às 20 horas, na Galeria Camargo Villaça.

A maior contribuição de Rothko à história da pintura moderna foi ter criado campos de cor que transformaram o expressionismo abstrato americano. Ao mesmo tempo que o espectador reconhece nesses gigantescos ícones (com frequências retangulares) uma tentativa de expandir o espaço da tela, essas pinturas abrem um “templo” para contemplação íntima. Pode parecer paradoxal que alguém tente fazer isso com violentas pinceladas em telas de grandes dimensões, mas Rothko descobriu e podia. Há algo de heroico nesse gesto.

Para Giannotti, a pintura só é pintura se avançar nessa direção. “Pintura exige rigor formal, deve trazer consigo uma carga poética e cada gesto tem de ser heroico", define Marco, 29 anos, filho do filósofo José Arthur Giannotti com a poeta Lupe Cotrim. E conclui sua definição: “A arte deve ter compromisso com a transcendência.” Ela também deve, segundo o artista, “desconfiar do conceito", na melhor tradição duchampiana. Traduzindo o sentimento de outros pintores, Giannotti investe contra a mania de instalações cenográficas, que tentam manter viva a arte conceitual nascida nos 60.

 

Para essa batalha anticonceitual, Marco Giannotti foi buscar aliados: o diário de viagem à Sicília do poeta e filósofo alemão Goethe, de quem é tradutor, e os poemas de Murilo Mendes. Há nos poemas de Mendes o que ele chama de “dilaceração semântica”, uma percepção aguda de como a palavra tenta manter vivos esses templos e colunas que se perdem no tempo e parecem se dissolver no ar. “Ficou uma coisa algo proustiana, mas ainda acredito na capacidade de representação da pintura”, diz.

Por vezes, esse crédito na representação se torna um tanto incômodo, para não dizer anacrônico. Quando Marco pinta o céu, pensa automaticamente no céu de Veronese ou na perspectiva de Giotto (o que é um escândalo para um pintor nascido numa época que abomina o ilusionismo na pintura). Giannotti sacode os ombros. “E uso bastante verniz e têmpera, como os pintores renascentistas, porque busco a imaterialidade, a arquitetura de luz dos templos, observa, desafiante.

Como Rothko, ele quer transformar essas pinturas num espaço habitável, “poético e fora da atmosfera cotidiana". Justapõe, como o mestre, grandes áreas de cor. Restringe seus traços, ainda conio Rothko, a uma única forma geométrica de vocação vertical, ascensional. Os templos da antiga Egesta, agora Segesta, conservam as marcas da antiga civilização grega nessa cidade siciliana. Porém, não São os signos de uma cultura pré-moral que interessam ao pintor, mas os vestígios de um sentimento que liga o homem agrário, já desaparecido, a seus descendentes modernos. A exposição tem oito telas de grandes dimensões, cujos preços estão entre US$ 6 mil e US$ 7,5 mil.